O rapcore do Oficina do Diabo

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Batemos um papo com a Oficina do Diabo, banda que faz o gênero Rapcore mesclando elementos do Rap, Hardcore e Metal. Formada em Belo Horizonte, tem o grupo composto por Felipe Augusto e Monstrinho nos raps, Daniel Alves na guitarra, João Reis no contrabaixo e Filipe Soares na bateria. Mais sobre a banda aqui.

Em agosto eles lançaram seu primeiro trabalho oficial, o EP “Incitando Ódio e Violência“ com três faixas, sendo elas “Ateu”, “Afrobrasileiro” e “Em Pele de Cordeiro” que tratam de temas, tais, como preconceito, sociedade, dogmas, religiosidade, política, entre outros.

A #RPAlternativo ouviu o EP “Incitando Ódio e Violência“ e conta agora pra vocês.

Na letra de “Ateu”, achamos versos como “A sua igreja é uma empresa, com visão capitalista/O ouro escravo católico, o pastor milionário/E eu lendo sobre um homem que andava de pés descalços.” que nos levou a pensar sobre como estamos vivendo tempos onde Igrejas tratam fiéis como clientes e eles não veem o obvio que é o distanciamento da simplicidade defendida pelo homem que originou suas ideologias religiosas que foi Cristo e também é expostode forma eficaz na letra uma critica ao perfil preconceituoso cristão que se esconde atras da desculpa de “portador da moral e bons costumes” para espalhar discursos de ódio por onde vai. Canção de batida marcada e guitarra proeminente ao longo de todos os 5:53 minutos de duração.

A letra de “Afrobrasileiro” conta com trechos fortes como “Seu livro didático tentou e não conseguiu/Sua televisão também não me induziu/A ter vergonha do que eu nasci para ser/Sua revista de moda não vai me convencer/A zoar meu corpo todo, seguir sua opinião/Destruir os seus conceitos, é a minha intenção”  que soa como um impulso de resistência. Além disso a canção nos remete a pensar sobre a o erro que o termo afro-brasileiro possui  ao vender uma ideia de respeito quando na verdade está mais uma vez rotulando pessoas negras e dizendo  a elas que não são daqui. É uma composição com bastante sensibilidade e inteligencia que nos faz mesmo terminar de ouvi-la tendo certeza que não existe isso de separatismos, nós somos sim todos brasileiros. Ponto alto também fica pela melodia que se torna mais pesada durante os versos mais ácidos entregando uma canção muito completa.

Finalizando o EP, a musica “Pele de Cordeiro” que é a única canção que conta com refrão claro – que não sai da cabeça – marcando a musica. A letra também aborda a temática religiosa, agora, mais inclusiva a tratar do perfil protestante, porem vai além ao falar de corrupção e ampliar o sentido que damos a ela, como podemos ver em versos como “No dia a dia reclama do político/Mas faz o mesmo na vaga do paralítico/Imprudência no trânsito, não respeita fila/Exemplos menores da sociedade fingida” que nos refletir do quão somos cúmplices da realidade que temos repulsa. Em suma, gostamos muito do som e da proposta sustentada pela banda, suas vertentes musicais formam um rapcore marcante.

Além do EP “Incitando Ódio e Violência” também estão sendo lançadas duas faixas a mais, são elas “Paginas da Vida” e “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Esquadro Passado” reforçando que em tempos de ódio gratuito , o rapcore do Oficina do Diabo nos soa com um novo folego artístico e humano. Pensando nisso, convidamos o Felipe Augusto, um dos vocais e fundador da banda para sabermos mais a respeito. Confere aí. 🙂

Como se conheceram e como decidiram formar a banda?

A banda é um projeto pessoal meu que tenho a bastante tempo e que possuía outro nome. Em 2010 resolvi mudar o nome e comecei a buscar pessoas, porém foi só em 2013 que foi possível dar seguimento com a ideia junto com um amigo de longa data com quem já havia tocado em outra banda, o baterista Lelinho. Com o tempo nós encontramos o guitarrista Daniel através de um anúncio e ele ficou fixo, depois encontramos outros membros que não se firmavam. No início de 2015 Lelinho avisou que sairia, mas que queria gravar as baterias de nosso EP, ele o fez e então mudou-se. Ficamos um tempo parados até que acabei encontrando nosso atual baterista Filipe ainda em 2015 que também se firmou na banda. Tivemos trocas de contrabaixistas até que lançamos o EP e pouco tempo depois através de um anúncio achamos nosso atual baixista, o João Reis.

A escolha pelo nome Oficina do Diabo é referencia a alguma aversão religiosa que a banda possua? E como é cantar sobre isso num país onde a maioria cristã não quer ouvir?

O nome não faz referência a nenhum tipo de aversão, em verdade o único da banda ateu sou Eu. A escolha do nome foi feita somente para refletir da forma mais direta possível os ideias da banda, já o fato de falar sobre religião em um país extremamente religioso é com certeza um grande desafio, algumas pessoas nos estranham somente pelo nome, até mesmo pessoas que em tese não o deveriam por estar envolvidas na cena underground, punk, hardcore e por aí vai, mas é algo do qual sempre soubemos que iria acontecer, não é surpresa nos depararmos com pessoas que nos ignoram somente pelo nome da banda sem sequer ouvir 1 minuto, que seja, de nosso trabalho, os que o fazem já começam normalmente ouvindo polêmica nos primeiros versos de cada música como pode ser ouvido, por exemplo, nas faixas “Ateu” e “Afrobrasileiro” aonde há a ironia e a negação respectivamente.

Vemos que gostam de abordar temas políticos/sociais nas letras. Qual a visão da banda em relação ao cenário político nacional atual?

Os membros da banda não possuem uma visão unificada sobre nenhum tema e não existe essa obrigação para tal, apreciamos o respeito e vemos isso como parte essencial para se conduzir qualquer projeto. Falando por mim, vejo uma situação caótica no que tange a política nacional, falta de unidade sem contar que a cada dia fica mais claro que o Brasil nunca teve o que toda nação que aspira o progresso deve ter que é um “projeto de Nação”, o Brasil não sabe se definir, e após um golpe de estado isso fica ainda mais complexo de ser feito, principalmente, para o brasileiro comum que é sugado e explorado praticamente em todo seu tempo cumprindo uma carga horária de serviço absurda que o atual governo golpista deseja quase que dobrar. As atuais ações políticas abrem espaço para um turbulento cenário futuro, como simples exemplo é quase que certo que se um dia um presidente afiliado ao PSDB por exemplo tenha no Congresso Nacional uma maioria opositora liderada pelo PT também venha a enfrentar um processo igual de golpe de estado, pois o precedente está aberto. Tudo isso foi feito sob as asas do judiciário, bem provável, com a aprovação do mesmo como demonstram algumas escutas divulgadas e algumas posturas adotadas quando, por exemplo, negociavam um trágico e imoral aumento salarial com o ex-presidente da Câmara do Deputados que era réu na casa. Triste o cenário atual.

Na letra de “Afrobrasileiro” vocês fazem um protesto contra o termo e o tratamento que ele sugere. O que acham a respeito da representatividade que parece estar sendo abraçada pela mídia e grandes marcas?

Não se trata de um protesto, nós não fazemos letra com esse propósito, é de fato uma crítica social ao termo que representa apenas uma inversão de valores e a consolidação de uma cultura de preconceito que existe em todo o mundo e é mais forte no Ocidente, é algo histórico e que seria muito difícil de debater sobre isso em poucas palavras já que são muitas as nuances, porém, em suma, a letra aborda a ideia que aquele que nasce no Brasil é brasileiro e apenas isso, não se vê ninguém chamando o cidadão branco de “eurobrasileiro”, isso é proposital e sistemático para que se crie a ideia de que o preto não é daqui, não pertence a esse solo e pátria, que o cidadão que não é branco é o dono de tudo que se vê por aqui e todos os outros são convidados, e como é dito em um trecho nem mesmo os “índios” que são aborígenes saem livres dessa prática de exclusão social e negação histórica. A mídia no caso não faz nada além de tentar comercializar coisas, ela apenas repete padrões de forma que reflitam o interesse da sociedade articulando para que isso ocorra de acordo com seu interesse e quando não é possível manipular, ela então se adapta e forja uma nova estratégia para tentar guiar as pessoas para o seu interesse comercial. A mídia representa, em geral, empresas e empresas querem ganhar dinheiro, é isso que tentam fazer o tempo inteiro e não seria diferente com a imagem do cidadão preto e sua cultura que habita esse país.

Com letras tão criticas, como ocorre o processo de composição das musicas?

Não existe um padrão de composição . Em geral como se trata de uma banda com influência muito forte do Rap e tendo o vocal usando esse gênero como base, o que fazemos é elaborar a ideia de uma letra com um instrumental que vamos criando e lapidando para que fique algo que nos agrade bastante, na maioria das vezes é assim e as ideias vão surgindo aos poucos, em alguns casos fazemos a letra para o instrumental ou o inverso, mas no geral se dá com a letra sendo encaixada sobre um instrumental.

Como fizeram da sonoridade da banda um ponto de equilibro entre o Rap, o Hardcore e o Metal e quais influencias musicais colaboraram para isso?

Apesar de serem três gêneros musicais que tem origens diferentes, acabam se aproximando por questões históricas e a principal delas é serem feitas por pessoas das periferias das grandes cidades, isso facilitou muito o processo e sempre foi muito comum encontrar pessoas que estavam ligados a um dos gêneros ou que gostavam de ao menos um dos outros dois. Achar um equilíbrio para casar os gêneros é mais uma escolha pessoal e conjunta do que uma ideia geral, cada banda vai fazer isso de um jeito e em suas limitações e preferências. As influências são muitas, no nosso caso, todos gostam e ouvem os três estilos apesar de cada um ter suas preferências, mas não é difícil citar que todos gostam de bandas como Ratos de Porão, Planet Hemp, Sabotage, Rage Against the Machine, Pavilhão 9, Brujeria, RZO e até mesmo alguns artistas que não estão ligados a nenhum dos gêneros como Bezerra da Silva.

Nos tempos em que vivemos é quase impossível não acessar a internet, escutar e baixar música. Qual a posição da banda sobre esse assunto?

Posição simples e direta, baixem as músicas e se travar tentem piratear usando algum programa, se gostarem tentem ajudar o artista ao menos indo em apresentações ou comprando o som dos caras caso vendam, pois fazer música não é barato e muito menos fácil, existem muitos custos em todos os quesitos, desde a produção musical até o deslocamento para tocar em outras cidade e estados.

Quais os planos para o segundo semestre de 2016?

Estamos na mesma pegada sempre. É tentar alcançar o máximo de pessoas possíveis, tocar bastante e buscar a formação de nosso público e fortalecimento de nossa cena local, pois o Brasil em termos gerais está com uma grande falta de “cena local” que em sua maior parte está em migalhas. Em Belo Horizonte não está muito diferente, estamos buscando com um trabalho unificar parcerias com pessoas da cidade para reconstruir nossa cena, pois somos nós os maiores interessados e somos nós quem devemos fazer isso, mas isso seria tema para uma outra entrevista.

Para finalizar, gostaríamos de parabenizá-los pelo trabalho e pedir que vocês deixassem um alô pra todos que curtem seu som, aos ouvintes da #RPAlternativo e aos que acompanham a cena underground.

Primeiro agradecer as pessoas como vocês da RPA pelo trabalho que apesar de desgastante é feito com carinho e atenção dando espaço para aqueles que desejam mostrar o trabalho que está sendo realizado nos mais diversos pontos do Brasil e levando isso para o mundo sem cobrar jaba, sem fazer exigências e sem discriminar bandas e artistas pelo trabalho que fazem. Aos que acompanham a cena underground no Brasil inteiro fica o pedido para àqueles que curtem, não deixem de apreciar, prestigiem os artistas locais pois são esses os que mais necessitam e são os que mais movimentam a cultura em qualquer lugar do mundo, apreciem e divulguem, a presença do público é essencial para o fortalecimento cultural e isso não serve somente para os que estão envolvidos com a música e sim para todas as manifestações culturais, aos que apreciam ou venham a apreciar nosso trabalho fica o agradecimento e o recado de que fazemos tudo isso com o maior carinho e dedicação pois queremos levar uma ideia interessante e divertida para todos vocês, apesar das temáticas usadas pela banda não se pode esquecer jamais que música é diversão, entretenimento e acima disso, é cultura. Muito obrigado.

A Rádio Ponto Alternativo indica

Diego Curumim, CO-Fundador da Rádio Ponto Alternativo, curto bandas de Punk em geral, a ideia é indicar uns sons que quase ninguém conhece..


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