Toca Raul: a incoerência do roqueiro reaça

Toca Raul: a incoerência do roqueiro reaça

Toca Raul: a incoerência do roqueiro reaça

O roqueiro reaça grita “Toca Raul”, mas fica ao lado de quem defende a ditadura

 

O roqueiro reaça é um desafio para o velho e bom Rock’n Roll, mas que fique claro, o Rock’n Roll na minha perspectiva que vejo esse gênero como livre do cabresto do conservadorismo porque não dita regras. Pelo contrário, ele zomba de regras e ideologias, rompe com os padrões e não poupa políticos, igreja e nenhuma outra instituição. Essa é minha visão, mas tem quem acredite que pode curtir Rock e ser conservador.

E quem está com a razão?

 

Não interessa, o que interessa é a postura de cada um. Eu não uso drogas ilícitas e nem por isso saio bancando a moralista dizendo que quem usa tá fodido, enquanto o cara conservador do Rock fala isso e fala muito mais, fala contra os direitos na comunidade LGBT, dos negros, da mulher e demais grupos com os quais ele não se identifica. Me incomoda ver gente consumir Rock sendo moralista. Fazendo da luta do outro, uma piada.

Quem faz isso é chamado pejorativamente por roqueiro reaça. Aquele que não leva a serio nada, compartilha memes engraçadinhos falando mal de grupos aos quais não pertence e que apoia fanaticamente conservadores como Malafaia, Bolsonaro e agora até o Trump.

Que tal pegar esse Brasilvéi de contradições para explicar o fenômeno do roqueiro reaça?

 

Bem, nosso pais é marcado pela desigualdade social e não se pode esperar que alguém nascido na Aldeota (Zona nobre de Fortaleza) veja a vida da mesma perspectiva de quem nasce no Bom Jardim (periferia). É claro que você facilmente encontrará gente no Bom Jardim torcendo pela morte do bandido sem sonhar que por ele ter nascido na periferia, é um dos que a elite torce para eliminar também com o lema do “bandido bom é bandido morto”. Nossa carga cultural dividida permite que pessoas gostem da mesma música, mas que a assimilem de forma diferente.

Essa lente diferenciada permite que exista sim o ouvinte de Rock que baixa a cabeça para os dogmas cristãos, que se assusta por não poder fazer mais piadas machistas, homofóbicas ou racistas sem que não seja criticado. Esse tipo, o roqueiro reaça está sentindo perder espaço, o que ele não quer e para se manter está elegendo heróis. Para o cargo de herói sempre elege uma personalidade publica que faz abertamente discursos de ódio, mas que seus seguidores não chamam assim, chamam de “liberdade de expressão”. Inocência será?

Não enxergar ódio no discurso desses heróis está levando pessoas a apoiarem quem historicamente os perseguiu.

Na ditadura, a essência do Rock não podia existir. Censura nela.

 

Pô, gritar “Toca Raul” e ficar do lado de quem defende a ditadura é ser muito incoerente.

Raul Seixas foi um grande artista libertário e um pouco do que ele acreditava pode ser lido num documento feito com sua colaboração conhecido por Manifesto da Sociedade Alternativa aqui.

Hoje é fácil citar trechos de música do Raul Seixas nas redes sociais, é fácil por legenda na foto chamando a si mesmo de metamorfose ambulante, mas pra nossa desgraça é fácil ficar do lado de quem censurou, perseguiu, torturou e exilou o Raul que só foi chamado de volta porque o álbum Gita lançado em 1974 foi um imenso sucesso. Ele voltou e por muito tempo foi proibido de cantar ao vivo diversas canções, como Sociedade Alternativa por exemplo.

Não é mole fazer Rock em tempos onde os direitos do individuo não valem nada como ocorre na ditadura/regime militar.

Ah, deixe sua luta fora do meu refrão

Sempre haverão posicionamentos políticos para onde quer que você vire e isso quer dizer que mesmo o rock leve bem humorado que você escuta também está fortalecendo algo e nós não precisamos compactuar com o que não constrói.

Por que você vai rir de uma piada que só foi feita para deslegitimar a luta do outro? Bandas não precisam levantar bandeiras, mas também é de doer a cabeça ver gente se dizer roqueiro e não entender que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte…” são versos de luta.

Eu sei que o assunto é difícil, complexo e caso tenha uma opinião contrária fico a disposição para um bom debate de ideias.

Para finalizar deixo o vídeo do Raul falando sobre a tortura que sofreu na ditadura:

Gente, a vida é curta demais pra fazer rolé com Malafaia e Bolsonaro. Fala sério…


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Garota do Rock, estudante de Administração e uma bairrista apaixonada pelo seu Bom Jardim das artes. Uma riot girl com horror a rótulos, conforme demostra desde 2013 no blog Feriados de Mim. Escreve para explorar questões humanas e para não desaparecer.

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